Último capítulo
Estávamos prontas quando o barco chegou para nos buscar, há tempo a tempestade tinha cessado, no céu o crepúsculo se anunciava, embarcamos, sentamos, ela encostou a cabeça no meu ombro, abracei-a e em silêncio seguimos no barco pela imensidão azul do mar...
Olhei pela última vez a ilha que se distanciava cada vez mais...
A cabana que ainda abrigava os resíduos da nossa entrega, dos nossos cheiros, dos nossos gemidos, do nosso prazer...
As Palmeiras balançavam ao sabor do vento... Guardiãs silenciosas e fieis do nosso segredo que ali ficaria para sempre!
Estranhei Mirelle, não disse uma palavra até chegarmos ao seu chalé..
Instigada perguntei-lhe:
- Estais arrependida?
Ela me abraçou.
- Não. Foi maravilhoso.
Beijei-a ardentemente.
- Vou deixá-la para que descanse. Encontramos-nos amanhã?
- Prá que pensar no amanhã? Se tudo o que vivemos hoje valeu como uma vida inteira!
Fitei-a sem entender.
- Vá! Sei que também está cansada!
- Serei obediente linda e gostosa mulher!
Ela riu.
Quando me preparei para abrir a porta, ela me puxou para si e beijou-me profundamente, o desejo se aflorou em nossos corpos, colei meu ventre sob o dela.
Com muita relutância e arquejando ela me empurrou delicadamente.
- Vá.
- Vou. Mas, volto amanhã.
Voltei pra casa, sentindo a excitação do desejo atormentar meu corpo.
Tomei um banho, deitei e quase que imediatamente adormeci profundamente.
Desta vez sem ajuda de pílulas... Sem ajuda de bebidas!
- Como?! Ela foi embora?!
- Dona Mirelle partiu hoje bem cedinho, ela deixou uma carta para a senhora e esse pacote.
Peguei a carta, ainda atordoada... Por que ela fez isso comigo?! Por quê?!
Comecei a ler...
“Querida Alex...
Por favor, não fique com raiva de mim, verá mais tarde que foi melhor assim.
Não lhe contei, mais na verdade sou casada, tenho dois filhos e um neto.
Casei-me por amor, mas, depois de descobrir inúmeras traições de meu marido, cheguei a conclusão que o divórcio não seria favorável a nenhum de nós.
Portanto vivemos um casamento de aparências, não sou promíscua, mas gosto de ter um tempo só prá mim... Até que conheci você.
Não demorei muito para perceber seu desejo, confesso que no início, isso alimentou meu ego, até que comecei a te olhar diferente, gostando dos seus olhos, do seu rosto, de como essa mechinha do seu cabelo caia na sua testa, da sua boca...
Até então...
Mas, lá naquela simples cabana, naquele momento único, senti-me totalmente atraída!
Nunca senti prazer assim como senti com você.
Se eu ficasse, iria me apaixonar perdidamente e vice-versa, e essa paixão se transformaria em sofrimento para nós duas.
Jan apesar e com pesar, foi uma mulher de sorte, pois foi feliz e teve teu amor até o fim!
Dê continuidade nessa felicidade fazendo o melhor: Vivendo!
Deixei- te uma lembrança minha, creio que você irá gostar.
Jamais te esquecerei.
Seja Feliz.
Com Paixão
Mirelle”
Li e rê-li por diversas vezes, não acreditando que ela fez isso comigo.
Agora entendia o porque daquelas palavras, da maneira como ela agiu depois de voltarmos da ilha... Mirelle!
Peguei o pacote, agradeci o recepcionista e sai desanimada.
Caminhei de volta como se estivesse sem rumo, não sei o que doía mais se era o orgulho dela ter me dado o fora ou fato de ficar sozinha novamente.
Cheguei e sentei-me no banco da varanda, entre a raiva e a decepção rasguei o papel que envolvia o embrulho, e lá estava ela na pintura da tela, linda, em pé em cima dos rochedos da praia, os cabelos soltos pelo vento, uma cópia fiel dela, o contorno do corpo, do rosto, perfeito, como um retrato.
No canto estava escrito: “com paixão, M”
Tive ímpetos de rasgar, quebrar, jogar fora...Mas, a lembrança dos momentos que passamos na cabana puseram fim nesse tolo rompante.
Passei o resto do dia sem sair de casa, curtindo uma dissimulada “dor-de-cotovelo”, pensando, no que eu estava fazendo com a minha vida, nada mais iria trazer Jan de volta,e ficar me atirando em paixões movidas por pura atração também não iriam acrescentar, nada em minha vida,estou com 45 anos e está na hora de crescer “dona Alex”, ficar chorando não vai mudar a escolha do destino.
Mirelle tem razão, tenho é mais que viver e fazer o melhor com minha vida.
No outro dia bem cedo, agradeci me despedindo dos caseiros, e rumei de volta para São Paulo.
Prá surpresa minha Denilze havia mandado uma faxineira em casa, estava toda limpa, cheirosa, liguei avisando-a da minha volta.
Uma outra surpresa me aguardava ao chegar na produtora, Denilze e os funcionários, fizeram uma festinha de boa vinda, abraçando-os e agradecendo falei que o certo seria: “Bom recomeço”, passado esse momento festivos, retornamos ao trabalho, Denilze acompanhou-me até a minha sala.
- Hummm! Está com outra carinha! Mais bonita! Bronzeada..
Enquanto ela falava eu tirava o papel que embrulhava o quadro para pendurar na parede.
- Que mulher linda nessa pintura! Quem é ela?!
Por um momento fiquei tentada para contar...mas, pra que? Um segredo para se tornar segredo tem que permanecer sendo um segredo.
- Não sei! – respondi evitando olhar para ela- Comprei-o numa feirinha de artes.
- È linda! Ela existe ou foi fruto da imaginação do artista?
- Quem sabe?
Denilze me olhou desconfiada.
- Que foi? –Perguntei-lhe.
- Você parece estar me escondendo algo...
- Deixe-me ver... Quer me revistar? – Brinquei.
Ela riu e depois fitou-me com ar carinhoso e maternal.
- Alex! Estou feliz por vê-la melhor, sei o quanto é difícil e doloroso mas, a vida continua e não importa a dor que ela nos provoca.
- Sim. Eu sei. Muito obrigada amiga pela compreensão e pela força!
Nos abraçamos.
- Agora chega de conversa. Ao trabalho.
A semana passou, me atirei dessa vez de cabeça no trabalho, já não doía tanto voltar para casa, Mirelle dividia com Jan os meus tormentos, meus momentos de saudades...
No fim-de-semana, tomei uma decisão, de que adiantaria ficar guardando as roupas, todas as coisas de Jan, abri o guarda-roupa, tirei tudo dela de dentro,fui olhando cada uma delas, as que eu adorava vê-la usando...
Não pude conter as lágrimas, chorei abraçando uma de suas roupas... Chorei de saudades...Que saudades minha amada!
Decidida, sequei meu rosto e continuei a colocar nas caixas todos os objetos de uso de Jan para doar.
A campainha tocou, fui atender era Denilze e Val.
Elas falaram que era uma decisão certa tirar e doar as coisas de jan.
Levamos para um centro de assistência social.
A noite teria um coquetel de um lançamento de uma marca que nossa produtora produziu.
Toda a mídia estava presente, convidados etc.
Quase no fim, Denilze me chamou.
- Alex, quero te apresentar uma amiga.
Três mulheres estavam a nossa frente, um cabelo cacheados abaixo dos ombros me chamou atenção e fez meu coração acelerar...
“Seria Mirelle?” – Pensei comigo.
As mulheres se voltaram.
- Oi Denilze.
- Alex, essa é Beatriz.
- Como vai? È um prazer conhecê-la. – Apresentei-me ainda sentindo o coração batendo forte, seus cabelos lembravam os da Mirelle.
O rosto diferenciava, com uma beleza delicada, olhos castanhos, atraente.
- O prazer é todo meu em conhecê-la!
O calor do toque de sua mão na minha me agradou.
Alerta! Não. Eu havia decidido não me envolver, deixar as coisas acontecerem.
Saímos dali e fomos num restaurante jantar.
Beatriz me encantou, era divertida, inteligente, simpática e muito atraente.
Na saída do restaurante, Denilze e Val insistiram para que eu fosse com elas dar uma esticada na noite.
Beatriz me olhou, um olhar convidativo.
Resisti.
Disse que estava cansada e que tinha um projeto de um evento para analisar.
Percebi que Beatriz ficou desapontada.
Despedi-me delas.
Denilze e Val juraram, creio que com os dedinhos cruzados nas costas, que não tinha sido um “arranjo” delas o aparecimento de Beatriz.
Fiz de conta que acreditei.
Os dias passaram normais, tendo momentos em que a saudade e a falta de Jan me afligia sendo impossível conter as lágrimas.
Uma noite em casa lendo um livro, meu celular tocou...
- Alô?
- Alex? Beatriz, lembra? Ou se esqueceu de mim?
- Absolutamente. Como vai?
- Estou muito bem. E chegando de mudança, sai do Rio, agora estou voltando para São Paulo.Vou direta no assunto... Quer jantar comigo amanhã?
Uma desculpa para recusar já se formava em minha resposta.
- Oi ainda está ai? – Perguntou-me devido ao meu silêncio.
Por que não?! – “Pensei comigo”
- Estou sim e aceito jantar contigo.
Combinamos o horário e o restaurante.
Ao desligar o celular...
- Como ela tinha o meu numero?! – Perguntei pra mim mesma.
- Dona Denilze!
Aprendi que a vida nos reserva além da dor, novas oportunidades para sermos felizes.
A melhor de todas: Viver!
FIM
INEZ MARCONDES
FLORIANÓPOLIS 02/022011
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