Caso com o passado

Caso com o passado
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sábado, 9 de abril de 2011

A DAMA DO CORETO

A DAMA DO CORETO

Conto adaptado da peça teatral: A dama do coreto de: Inez Marcondes

Orlando voltava para casa. Estava satisfeito, porém apreensivo e sentindo um leve sentimento de culpa que logo foi afastado ao lembrar dos momentos que há pouco tivera nos braços de Alice. Alice, uma jovem de pouco mais de vinte e quatro anos, companheira de trabalho, funcionária na mesma empresa que trabalhava.

Havia seis meses que enfim ela conseguira seduzi-lo marcando encontros, tornando-se então amantes.

Orlando no inicio se encheu de culpas, quando retornava de seus encontros amorosos com Alice, parava em uma floricultura e comprava um lindo bouquet de rosas para Ana sua esposa, assim , agradando-a. Surpreendendo-a com presentes fazia-o se sentir melhor, afinal, era homem e qual homem casado ou não, consegue resistir aos encantos de mulher, ainda mais quando ela dá em cima?

Além de que era um bom marido, carinhoso com a esposa, com os tres filhos, não tinha vicíos, era da casa para o trabalho, do trabalho para casa, era, antes ,de Alice, agora, sempre arranjando desculpas para seus encontros com a amante.

Ana, uma ótima esposa, mãe dedicada, Orlando a amava, e aos seus filhos dando-lhes uma vida confortavel.

Ana amava o marido com paixão, Orlando era tudo para ela, mais ainda que os filhos.

Orlando estava apreensivo, pois, esquecera o celular em casa depois do almoço, justamente quando Alice lhe enviara uma mensagem combinando um jantar onde ela teria uma bela e excitante surpresa para ele, ao ler a mensagem Orlando sentiu um calor no ventre, anteprevendo as delicias proporcionadas sem limites pelo corpo jovem de Alice.

Será que Ana viu? Leu a mensagem? Não isso não poderia acontecer.. Quando dera por falta do aparelho se desesperou, como pode esquecer? Aproveitou que teria que sair para visitar um cliente e passou em sua casa, nervoso, entrou, Ana veio em seu encontro com o celular na mão, sem conseguir olhar diretamente para ela falou:

- Querida, sabia que tinha esquecido aqui em casa...Ainda bem! Teve muitas ligações?

Foi com alivio que ouviu Ana falar normalmente que sim, que tivera muitas ligações de clientes perguntando por ele.

- Bem, certamente os numeros das ligações estão registradas, farei contato logo mais.Tenho que ir agora querida.

- Vou fazer aquele prato que você gosta para o jantar, espero que não saia tarde hoje do trabalho.

A voz de Ana estava calma. Nada demonstrava que vira a mensagem. Que sufoco! Orlando se maldizera por não ter apagado-a. Como pode se arriscar assim?! Mesmo se sentindo em pecado agradeceu a Deus!

Por um momento sentiu remorso...Mas...Envolvido pelo fogo da paixão lascívia...

- Que pena querida...Justo hoje que tenho um jantar de negócios. –Beijou-a- Sinto muito, mas, não vai dar. Pode fazer esse prato outro dia? Por favor querida?

Ana olhou bem no fundo dos seus olhos e respondeu:

- Outro dia pode não ter nunca mais o sabor de hoje!

- Tenho que ir querida! Tem um cliente me esperando. Vou chegar tarde hoje. Não me espere!

E saiu apressado. Não percebendo a angústia que havia nos olhos da esposa.

Orlando embicou o carro para entrar na garagem. Estranhou..Estava tudo escuro...Ana deixa sempre a luz da garagem acesa...A luz em cima do portão acesa..Agora tudo escuro...

Entrou com o carro. Mal o portão automático fechou escutou seu nome sendo chamado nervosamente:

- Seu Orlando!

- Pai!

Orlando se assustou vendo sua vizinha e seu filho mais velho de 17 anos entrando ao abrir a portão de entrada.

- Marcelo?! Dona Alzira?! Mas, o que aconteceu?!

Seu filho chorava desesperado.

- A mamãe ! Cadê a mamãe?!

- Como assim?! – perguntou aflito se entender nada.

- A Ana seu Orlando...Sumiu!

Orlando acompanhou sua vizinha e seu filho á casa dela onde seus outros dois filhos estavam, Liliane de 14 anos e Eduarda de 10 anos.

Estavam todos desesperados.

A vizinha contou que Ana antes um pouco das seis da tarde, procurou- a dizendo que teria que sair, estava arrumada, e pediu que ela olhasse as crianças, Alzira perguntou se iria demorar, Ana não respondera, estava estranha, afirmou Alzira.

Ana não voltou mais desde aquele dia.

Foram a policia registrar seu desaparecimento. O delegado perguntou o que tinha acontecido, o que poderia ter levado ela desaparecer?!

Orlando não soube responder. Teve medo.

Dentro dele a duvida martelava..Será que Ana descobriu?! Será que Ana leu a mensagem e foi vigia-lo?!

Orlando além de ficar atormentando com o remorso e culpas, foi suspeito de ter sumido ou assassinado a esposa.

Como não foi encontrado o corpo e nem indícios de crime, sem provas, foi liberado e o caso arquivado. Ana simplesmente entrou na lista de pessoas desaparecidas.

Antonio Correa da Silva, “Toninho”, assim era chamado o garoto de 16 anos que trabalhava junto com sua amiga Marta.

Marta, uma jovem simples de 20 anos, ela e Toninho recolhiam papéis, papelão, e outros lixos reciclaveis, tanto que faziam questão de serem chamados de recicladores.

Toninho vivia com os pais e os irmãos, pobres, moravam na periferia distante do centro da cidade. Era um garoto esforçado, enquanto seus coleguinhas ficavam na rua sem fazer nada, ele tinha sonhos, sonhava em ser alguém na vida, ter oportunidade de viver longe da pobreza, da fome, da miséria e das armadilhas que a vida bandida, marginal oferece.

Mantendo-se alheio ás gozações, Toninho seguia firme no seu trabalho, no seu estudo e junto com Marta saiam todos os dias após a escola no periodo da tarde muitas das vezes acabavam dormindo em algum canto da cidade para cedo encontrar melhores mercadorias.

Ele e Marta compartilhavam seus sonhos, suas esperanças no dia-a-dia.

As vezes eram confundidos com andarilhos, pedintes, vagabundos e também com os loucos que andam nas cidades vindos do nada, alheios da vida, causando medo, repulsa, desprezo e raiva nas pessoas.

Um dia estava lá eles recolhendo caixa de papelão na praça principal, quando Marta chamou sua atenção:

- Veja Toninho, aquela é a tal dama do coreto!

Toninho se virou e viu. Por um momento seus olhos ficou parado olhando aquela mulher na escada do coreto da praça, estava sentada, ao seu redor diversas sacolas, parecia estar em sua casa, indiferente aos olhares divertidos e gozadores que a fitavam certos de se tratar de uma pessoa insana, louca. Ela se sentara com pose, ereta, sensual e segurava entre os dedos um pequeno pedaço de espelho onde se olhava penteando os cabelos, se maquiando vaidosamente, era uma mulher que aparentava uns 38 a 40 anos, morena, cabelos pintados de vermelhos, se pintava com um certo exagero, mas, era bonita.

Admirado e hipnotizado com aquela cena, Toninho ficou encantado com aquela mulher que todos diziam ser louca, mas, por quê? A chamavam de dama do coreto, perguntou a Marta:

- Dizem que ela dorme com homens no coreto, cada noite ela está com um... Então apelidaram ela de dama do coreto! – respondeu Marta.

O garoto não conseguiu se concentrar no que fazia volta e meia sua atençao voltava a mulher que agora passeiava pela praça com suas sacolas penduradas no braço, caminhava balançando suas ancas como se querendo chamar as atenções dos homens e de outros andarilhos que ali se encontravam.

- Mas, de onde ela é? Ela é mesmo louca?! – Quis saber.

- Sei lá! Dizem que apareceu por aí...Outros falam que a conhecem, que largou a família por traição do marido e que já tentaram leva-la para tratamento e ela foge...Não quer voltar para casa...E que se chama Ana...

- Ana! Ela se chama Ana. Coitada como pode viver assim?!

- Só pode ser louca...Assim como outros também que vivem nas ruas... È uma doida varrida devia estar é no “Juqueri”!

- Coitada Marta! Por quê fala assim dela? Ela não faz mal prá ninguém!

- Você tem razão Toninho... Ela não pertuba ninguém...

Toninho ia responder quando derepente a Dama do coreto para em frente deles... E diz olhando para Marta:

- Tô bonita não é? Eu sempre fui bonita! Tá assim de homens atrás de mim...È só escolher...Mas, são tantos...Veja...Estou linda....

- Hiii...Tá me estranhando?! È ruim..Como é... Está dando umas voltinhas ó grande dama?

Parado Toninho meio com medo ficou em silêncio admirado com a coragem de Marta.

- Ora sua catadora de papel. Quem pensas que é para me falar assim?! Eu sei que me inveja! Alias todas me invejam!

- Inveja?! Cruz credo! Prefiro ser uma catadora de papel, mas, normal e não uma...Uma...

- Diga...Vamos diga! Não tenha medo! Você pensa. Todos pensam que sou louca não é? Que sou louca...Eu sou louca...Louca....

Marta e Toninho ficam apavorados quando ela começa a rir debilmente, mas, Marta querendo mostrar a Toninho sua coragem...

- Se fosse só isso...

A dama ainda rindo debilmente...Responde...

- E vocês acham que eu ligo? Falar dos outros sempre foi e será a saida covarde das pessoas que se julgam normais e certinhas, direitinhas...Mas, eu sou louca e como disse não ligo. Nós os loucos temos a liberdade! No nosso mundo não há limites, falsos padrões de moralismo...

Marta não respondeu e Toninho curioso perguntou timidamente:

- Padrões de moralismo?! Que é isso?!

A dama olhou para ele como se tivesse vendo-o naquele momento, passou a mão no rosto de Toninho e deu um sorriso e depois falou:

- Você será um belo homem quando crescer. Vocês estão me atrazando. Volte para seus lixos...Logo ele chegará... Não tenho que dar satisfação prá ninguém. Nem agora nem nunca...

Virou as costas e saiu em direção ao coreto.

- Ela gostou de você Toninho! Mas, quem ela pensa que é para nos chamar de catadores de lixo?! Atrevida! Metida ! Posuda! Nós somos recicladores viu? Será Toninho que as pessoas pensam que somos que nem ela porque ficamos pelas ruas catando coisas?!

- Claro que não Marta! Nós temos nossa casa. Nós não vivemos na rua e nem pedimos comida nas casas e ela...

- È mesmo. Nós não somos como eles, como ela que vive perambulando por aí. Lava as roupas no ribeirão, é pirada, vive periquitada crente que abafa! Coitada! Todo mundo goza da cara dela chamando ela de dama do coreto..Tentaram até expulsa-la daqui por verem ela...Você já sabe o que é transar né? Então ..Será que é verdade desse povo?

- Isso eu não sei! Mas, que ela é sabida ela é! Olha Marta...Ela tá dançando no coreto...

E lá estava a dama do coreto dançando e cantando...

Toninho não conseguiu esquece-la. Aquela mulher não mais saiu de sua cabeça, queria saber, de como uma pessoa pode ficar daquele jeito morando na rua, o que leva uma pessoa normal e que num belo dia dá um crik na cabeça e sai pelo mundo como um insano indigente, sabia de muitos outros como ela, milhares pelo mundo afora, mas, ela dispertou nele um interesse especial, Marta brincava com ele dizendo que ele estava apaixonado pela dama do coreto, que o deixava danado da vida.

Não via a hora deles sairam para trabalhar, queria ve-la, apesar de sentir um pouco de medo dela, mas, adorava ficar vendo-a se maquiar, seu rebolado ao andar, e as vezes em que ela simplesmente ficava sentada ora no banco da praça ora nos degraus do coreto, imovél, alheia, olhando o nada segurando suas sacolas magnifica em sua pose de dama.

Uma noite ele e Marta após lancharem, tinham se deitados nas caixas abertas de papelão para descansarem um pouco quando foram acordados subitamente pela dama...

- Acorda! Anda...Onde...Está ele?! Onde?! Você o roubou de mim sua ladra! Onde está ele?!

Acordaram assustados.

- Que foi?! Que tá acontecendo?!

Perguntou Marta para ela.

- Onde está ele? Onde?! – A dama insistia.

- Ih Marta será que ela é perigosa?!

- Calma Toninho! Calma! Que Deus nos proteja! Estamos perdidos...Tá procurando o que dona Ana, seu nome é Ana não é?

- Vocês não viram?! Nós saimos juntos eu e ele...Vocês viram sim! Ele é tão bonito não é? –Falava debilmente.

- Toninho ela tá surtando!!!

- O que vamos fazer Marta?!

- Deixa comigo! Ele? ...È eu quer dizer nós vimos sim! Ele ..Ele é muito bonito sim! Mas, não faz o meu tipo. Fique sossegada...Mas, o que aconteceu?!

A mulher começa a andar falando...

- Foi lindo...Ele estava tão carinhoso...Tão gentil...Falamos de tantas coisas...Fizemos planos ...Os nossos sonhos...E depois nos beijamos...Nos abraçamos...E fizemos amor...

Toninho e Marta vão atrás dela.

- Não precisa falar desse detalhe...Não é bom contar essas coisas para os outros...Bem e depois?

Assustado porém maravilhado com o que assistia, Toninho admirava a coragem de sua amiga Marta que parecia saber lidar com a dama do coreto.

- Depois?...Ele foi procurar uma rosa para mim...

- Romântico esse seu namorado...

- Ele voltou..-continuou ela debilmente- E pediu-me que fechasse os olhos...Mas, quando abri...Ele não estava mais...Chamei, chamei e nada! Procurei pela rosa e nada....Fui procurando...Procurando...

Andando vai até o coreto, remexe em suas sacolas enuma delas tira uma rosa já seca e volta alegre e mostra a eles.

- Viu?! Só achei a rosa! Olhe que rosa linda! Sinta o perfume...

Marta e Toninho cheiram a rosa seca.

- Realmente não é Toninho? Tem um delicioso perfume! Merecemos Toninho merecemos!

- Você está debochando de mim! Está com inveja! Aposto que ninguém te dá uma folhinha de mato! – E pega a rosa seca das mãos de Marta.

- Oras só me faltava essa...Eu com inveja?! Minha paciência tá acabando!

A mulher a ignora e vai até Toninho.

- E você meu querido, não quer dançar comigo? Vamos dançar! Amar! A noite está tão linda! Eu estou linda...

- Desculpe senhora..Mas, eu não sei dançar!

Tremendo Toninho vê os olhos dela se encherem de lágrimas e ela começa a chorar e se lamentar como uma criança.

- Ninguém gosta de mim! Ninguém ...Gosta de conversar comigo! Todos tem medo de mim...Ninguém me entende! Até você me abandonou...Fugiu de mim...Me deixou sozinha...

Foi se afastando, entrou no coreto, sentou encolhida no chão e ficou debilmente chorando e falando sozinha. Toninho foi até na entrada do coreto e com o coração conduido falou á ela:

- Dona Ana eu vou aprender a dançar e um dia dançarei com a senhora!

Marta correu até a ele..

- Tá ficando louco também é?! Vem vamos acabar de juntar as coisas e voltar para casa já perdemos tempo demais com essa doida....

Naquela noite em sua modesta cama, Toninho não conseguiu dormir, a imagem daquela mulher chorando sozinha como uma criança encolhida no chão de um coreto não saiu de sua cabeça...Ele não conseguia entender como uma pessoa normal chegava aquele ponto.

No outro dia, era um sabado, ele e Marta chegaram na praça, e um aglomerado de gente assistia alguma coisa que chamava a atenção, certos de ser algum artista de rua, foram ver, e lá estava a dama do coreto, deitada com as pernas cruzadas sobre um cobertor estendido no chão da praça como se estivesse numa praia, tinha a saia levantada na altura das coxas, de óculos escuros, lenço na cabeça, brincos, exageradamente pintada totalmente indiferente as risadas, gestos das pessoas dizendo uma as outras que ela era louca, outros passavam olhavam sacudiam a cabeça em repudio, e ela lá, nem aí para todos e derepente começou a falar:

- O que é que vocês estão olhando hein? Que foi? Dá licença que eu estou na minha praia?!...È só minha tá? Ser louco tem suas vantagens! Ah! Ah! Ah! Podemos estar em qualquer lugar...Em qualquer hora...E aqui é a minha praia...Estão olhando o que?! E por quê?! Estão achando engraçado?! Riem...Riem...Ah! Ah! Ah! È gostoso rir...Ah! Ah! Principalmente das desgraças dos outros! Ah! Ah! Ah! Não! Não...Os loucos são lunáticos! Ah! Ah! Ah! Tem uma frase...Como é mesmo? Já sei...De médico e louco todo mundo tem um pouco! Ah! Ah! Ah! Só que uns tem um pouco mais de louco...Loucos...Loucos...Loucos por dinheiro! Loucos por poder! Viva o poder! Loucos por vingança...Loucos para matar...Loucos para roubar...Mentir...Mentir...Enganar...Enganar...Engraçado...Loucos para fazer o bem...Não existe! Ou existe?! Ah! Ah! Ah! Esse mundo maravilhosamente louco! E Deus ...È um louco também por ter nos criado?...Olhem...O sol tá indo embora...Tá ficando frio aqui...Muito frio...Não há mais ninguém aqui...

As pessoas ali derepente foram ficando sérias, olhando aquela mulher que agora quase chorava, débil como uma criança frágil...

- Sabem porque sou louca? ...Eu não sei...Não consegui...Que vida era aquela?!...Que mundo é esse?!... Eu apenas quis fugir... Ir embora...E quando dei por mim...Eu estava aqui...Em lugar algum...E em todos os lugares ao mesmo tempo...Vejo os jornais...Mas, não leio...Ah! Ah! Ah! Vocês passam por mim...Prá lá e prá cá...Eu fico olhando...Olhando e nada vejo! E vocês me olhando...Olhando...Sou um ser...Um objeto curioso e desprezível...Porque nós os loucos sujamos as ruas, avenidas, as praças...Sujamos o mundo certinho de vocês...Nós os loucos, vagabundos...Mendigos...Andarilhos...Mortos de fome...Assalariados...Ah!Ah!Ah! ``E tudo tão falso...Do lado de lá...Asquerosamente falso! Acabou a praia...O sol se foi...Tá na hora de me arrumar...Tenho que estar bonita1 Muito bonita! Mas, ...Se ele não vir? Me deixar sozinha de novo?! Tenho medo...Muito medo de ficar sozinha! Todos se esconderam de mim...

Ela senta se encolhendo com os braços ao redor das pernas.

- Não vou mais procurar vocês...Não vou mais...

Cantando sempre debilmente...

- “Nana nenê que a cuca vem pegar...Se não dormir agora a cuca vem pegar...”Boi Boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta...Boi, Boi...”

E fica ali encolhida cantando.

O espétaculo acabou as pessoas desconcertadas vão saindo cada qual para o seu destino.

Marta olha para Toninho e diz:

- Eu é que fiquei louca agora! Você escutou tudo o que ela disse?!

Toninho não respondeu.

Saiu e foi até uma padaria, lá comprou um copo de café com leite, pão com manteiga, voltou se aproximou da mulher que ainda estava sentada no chão.

Tocou-lhe suavemente nos ombros, ela levantou a cabeço o fitou, ainda tinha lágrimas em seus olhos.

- A senhora deve estar com fome. Trouxe-lhe café com leite e pão.

Ela não se moveu, continuou fitando-o, depois devagar pegou o copo e o embrulho com o pão, sorriu para ele agradecida.

Toninho retribuiu o sorriso e voltou-se em direção a Marta que olhava para ele assombrada e foram recolher seus materiais reciclavéis.

Desde aquele dia Toninho sempre reservava uns trocados para comprar alguma coisa de comer para dar a Dona Ana, a quem passou a ter um certo carinho e atençaõ.

Marta embora não gostasse muito ajudava as vezes também comprando alguma coisa.

Um dia, Marta não pode ir, estava gripada e Toninho teve que ir sozinho, estava meio frio e ele levou uma garrafinha termica com café, após recolher caixas de papelões, sentou no banco, estranhou pois não vira ainda dona Ana no coreto e nem nos arredores da praça, ficou preocupado, mas, por pouco tempo, logo a figura dela apareceu vindo da rua ao lado da praça com seu andar provocante segurando suas sacolas, quando ela o viu veio direto em sua direção, sentando ao seu lado no banco.

- Ola meu principezinho! Que pena...Não posso ir á praia hoje...

- Praia?! Ah! È...Por quê não pode?

- Tá frio hoje...Mas, ontem eu fui... Veja como estou bronzeadinha...

- Você foi a praia ontem?! Legal! Tá mesmo...Queimadinha...Que nem cor de jambo....Mas, me diga a praia estava boa?

- Muito sol...A aguá estava uma delicia! Eu ia convidar você e sua amiga...Mas, não os encontrei...

- Então você ia nos convidar? Que pena Dona Ana...È que as vezes temos que ir no outro lado da cidade..Eu a Marta temos que dar um duro danado para recolher material para reciclar...Nosso trabalho é importante. E precisamos trabalhar, estudar para realizar nossos sonhos. Tá me ouvindo dona Ana?!

- Tô ouvindo sim! Você falar...Falar...

- E como tava falando..Eu quero estudar, ser alguém na vida, casar, ter filhos, Marta também...Quer achar o principe encantado...

- Casar...Filhos...Você já viu...Eu...Eu tenho meu principe...Continue...Tá tão bom ouvir você falar dos seus sonhos...

- Por quê?! Vocês não sonham? Desculpe...

- Não. Não se preocupe. Tá querendo saber...Se nós “birutinhas” sonhamos? Se não temos mais esperanças na vida? Depende da loucura de cada um...Não acha?

- Eu não acho nada1 E nem entendo nada dona Ana! Trouxe café, quer um golinho?

- Um cafezinho é sempre bem vindo mesmo prá nós!

Toninho a serve e a ele também, e fica em silencio.

- Pergunte. Vamos pergunte.

- Perguntar o que?!

- Aquilo que você e todos tem vontade de saber...De como vivemos...Por que ficamos assim..Não é? E você é um rapaizinho inteligente... Que sei.Bem..È verdade. De repente vocês aparecem ...A gente vê que não..Mendigos desses que vivem por aí esmolando....Eu não sei explicar a diferança...Vocês aparecem do nada, só que atrás desse nada..Deve ter um passado...Como dos outros também...Uma vida antes de se tornarem...Sei lá acho que uma coisa muito grave fez com que vocês...

- Fugíssimos da realidade? Como se desistissimos fáceis da vida? Dos problemas? Do amor? De tudo causa dor? Revolta? Sofrimento? Vontade de matar? De se matar?

- E como...Meu Deus! Como conseguem viver assim...Como dizer? Sem lenço...Sem documento...Como nada? Isso é mesmo loucura!

- Somos...Uma espécie de loucos não perigosos...Nem sempre incomodamos...As vezes sim...As vezes não...Sobrevivemos com a bondade de uns..Continuamos com os nãos de outros...Ficamos no nosso mundo..Se vier alguém e conversar, se queremos conversamos...Se não, ficamos em silêncio...As vantagens da loucura...depende qual...Podem nos expulsar das cidades, dos lugares...Mas, não do mundo...A não ser que nos matem! Apesar de muitos de nós já estarmos vivendo como mortos-vivos...

- Deus me Livre! Não fale bobagens!

- Não! Ah! Ah! Ah! Não...Não é bobagens...Muito de nós...Não nascemos com a loucura...Mas, na vida as vezes...Acontecem fatos...Fatos...Que se tornam insuportáveis...Dificieis de aceitar e causa...Forma ferida...Uma ferida tão profunda...Uma dor que nos enfraquecem...Somos frageis Há nossas mentes um poder e auto-destruição muito forte...Levam alguns ao alcoolismo...outros as drogas Outros ao suicidio...São tantos os caminhos da loucura...E também...Pode ser o destino da gente...Você acredita em destino?

- Sei lá desse tal destino Dona Ana! E você falando desse jeito nem parece que é...

- Meu queridinho...Nós também sabemos conversar quando queremos...

- Engraçado antes eu sentia medo de você....

- Todos tem medo...Nojo...Repulsa...” Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar..”

Toninho contrariado percebe que ela se “desliga”...

- Hei Dona Ana! Dona Ana...

Ela não lhe dá atençaõ. Levanta, pega suas sacolas e sai em direção ao coreto cantando...

- “Se esta rua , se esta rua fosse minha...”

Sentado no banco Toninho fica olhando-a aquela estranha e misteriosa mulher, que no coreto começa a falar sozinha em alto som...

- Voltar? Voltar?....Voltar prá onde?! Voltar para aquela vida?! Voltar tudo de novo?! Como?! ...Eles...Eles me esqueceram...Ninguém se lembra mais de mim! Não! Voltar não! Não pelo amor de Deus!

Ela abre os braços e como num palco, no seu palco da vida, começa a dar volta falando alto...

- Aqui é a minha casa...Ah! Ah! Ah! O meu mundo...Só meu! De mais ninguém! Aqui sou e sempre serei a Dama do coreto...A grande dama do coreto! Ah! Ah! Ah! Sou bonita..Gostosa...Não é meu amor?...Linda...Linda..Linda.. A grande dama do coreto! Ah! Ah! Ah!

Que fazer? pensa Toninho se levantando, a vida continua, e tenho que trabalhar.

Ao anos se passaram, Toninho se alistou no exercito, se formou foi embora para outra cidade, mas, em suas lembranças volta e meia a dama do coreto estava.

Soubera que desmancharam o coreto, por ando andaria Dona Ana?

O tempo se passou, Toninho virou Dr. Antonio engenheiro bem sucedido, casou-se e voltou para morar na sua cidade natal com sua familia.

Reviu seus pais, seus irmãos, Marta que casara também, se formou professora, o encontro dos dois foi emocionante.

Quando levou sua esposa para passeiar pelo centro da cidade, na praça reformada, as lembranças do tempo que recolhia caixas de papelão, das conversas com a dama do coreto...

Não conteve um suspiro, e sua esposa curiosa perguntou:

- Que foi? Saudades de alguém?

- De certa forma sim querida! Ali tinha um coreto...

- E o que tem o coreto?!

- Nada! Quer dizer..Outra hora eu te conto.

Mais um tempo se passou, uma noite seu filho teve uma crise de bronquite, ele e a esposa o levaram no hospital, na saida ao passar defronte a pracinha na entrada do hospital, ele viu uma pessoa deitada num dos bancos rodeada por cães, chamou sua atençao, pediu a esposa que esperasse um pouco e foi mais perto, um dos cães rosnou, viu que era uma mulher já idosa, deitada sobre várias sacolas, e um dos cães estava deitado sobre seu corpo, outro nos pés e outros rodiando, como se fossem seus guardas-costas, a mulher descobriu o rosto do cobertor e disse:

- Quieto dandan!

O coração de Antonio bateu forte. Se aproximou mais dela...E lá estava a dama do coreto, sem sua maquiagem, desprovida de toda a vaidade, cabelos branco, sem dentes...Os olhos de Antonio se encheu de lágrimas...

- Fica sossegado moço...Ele não vai morde-lo! Dandan é um bom cachorro, é manso...

- Dona Ana – Chamou com a voz embargada pela emoção.

Ela olhou para ele com atençao.

- Sou eu Toninho lembra-se? A senhora me chamava de principezinho Lembra de mim?

Ela se levantou, sentou e envolveu o cobertor na cabeça e ficou olhando para ele, Antonio ficou sem saber se ela o reconhecia ou não...

- Estou doente ! Sinto tanto dor no corpo! È muita friagem...

- Antonio! – Escutou sua mulher chamar.

- Já estou indo querida.

Antonio levou a mão no bolso tirou a carteira e de lá tirou umas notas de dinheiro e deu a ela.

- Tome dona Ana tem bastante ai para ir ao médico, comprar remédios e sempre vou passar por aqui para ajuda-la.

Ela pegou as notas guardou depressa dentro do decote da roupa e sorriu com sua boca desdentada agradecida,.

- Se cuide Dona Ana. Fiquei muito feliz de vê-la novamente. Embora não tenha me reconhecido.

Olhou-a mais uma vez e foi ao encontro da esposa, se tivesse demorado mais um pouco ouviria ela falar:

- Que Deus o abençõe meu principezinho! Que Deus o abençõe!

- Conhece aquela mendiga querido?! Você está chorando?

- Ela não é uma simples mendiga querida! Vamos, em casa eu te conto.

Entraram no carro.

Deu a partida e antes de dobrar a esquina ele viu pelo espelho do retrovisor a triste imagem daquela solitaria mulher deitada no banco que agora tem em sua companhia os cães vadios, vira-latas, sarnentos que a protegem, que a amam e são amados por ela, juntos acham consolos e calor no dura realidade da vida..Não se conteve e deixou as lágrimas escorrerem livremente.

FIM

INEZ MARCONDES

FLORIANÓPOLIS 5/07/07

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sukiyaki - Ue wo muite arukou - Kyu Sakamoto

Chic - Good Times bons tempos..

COMO CURTI AS DISCOTECAS...
FUI RAINHA DAS DISCOTECAS NO MEU TEMPO...
AQUILO SIM ERA DANÇAR...
MARAVILHOSO!!
INEZ...QUECIVÉL!!!