Quarto capítulo
Denilze abriu a porta, um misto de alívio e alegria transpareceu em seu rosto.
- Alex! Alex! Graças á Deus! – Me abraçou levando-me para dentro.
- Onde você estava?! Estou te ligando há horas! Por que não atende esse bendito celular?! Perdoe-me! Eu não devia ter falado com você daquela maneira... Eu não sabia mais o que fazer! Não agüentava mais te ver sofrendo desse jeito!
- Calma! Você está com razão! Eu não posso ficar alimentando essa tristeza, esse vazio, tenho que reagir... Pensei muito, e como você disse preciso de umas férias, um tempo longe, para me recompor, para aceitar que... Que Jan. Que ela não volta mais!
Comecei a chorar.
Denilze me abraçou.
- Minha querida! Vai ficar tudo bem! Deus nos deu o tempo como o único remédio para aliviar esse tipo de dor. A dor se vai para dar lugar a uma grande e confortante saudade! Você ficando bem, certamente Jan onde ela estiver ficará também!
- Não se preocupe! Darei conta de tudo aqui.
Quero somente que fique bem e volte inteira. A vida continua Alex!
- Ficarei bem. E a Val quando volta?
- Nesse fim de semana, estou com tanta saudade!
- Quer dizer então que a casa vai pegar fogo! – brinquei.
- Maravilha! Estou vendo sinal de melhora. Estou subindo pelas paredes! È melhor ir... Ligue-me quando chegar, o que precisar fale com os caseiros certo?
- Ligarei.
Sai do carro. E dei um forte abraço em Denilze.
- Muito obrigada minha amiga!
- Se cuida! Quero apenas te ver bem! Boa viagem.
Novamente entrei no carro, dei partida, acenei mais uma vez e segui viagem.
A viagem foi tranqüila, cheguei um pouco depois do almoço, a casa ficava numa avenida em frente ao mar, fora da temporada a cidade ficava quase deserta com apenas poucos turistas, que vinham assim como eu fugir para poder se libertar.
Denilze e Val, sua companheira há cinco anos, havia nos convencido a comprar uma casa aqui, estávamos para fechar negócio quando descobrimos o tumor em Jan.
Foi num exame de rotina, não havia sintomas, nem um indicio sequer deste bendito, há não ser uma forte dor de cabeça, não muito constante que pensávamos ser enxaqueca, não tinha muito mais o que fazer, em oito meses de luta, ele venceu e tirou a vida do meu amor, a família de Jan já tinha um histórico dessa doença, tios, tias, o pai, um militar austero, mas surpreendentemente aceitou numa boa quando eu e ela ao passarmos no vestibular decidimos assumir para nossos pais o nosso relacionamento e que iríamos nos casar, meus pais e a mãe dela entraram em desespero, o pai dela nos deu apoio, quanto aos meus ficaram um bom e logo tempo sem falar comigo.
A mãe de Jan, nunca aceitou, quando seu pai faleceu, Jan ficou arrasada, mas, nem nesse momento triste e difícil sua mãe mudou de opinião, dona Ester, só se aproximou quando soube que a filha estava doente, mesmo assim mal falava comigo, logo depois do enterro de Jan, ela quis entrar com pedido dos bens da Jan, a casa, enfim... Fiquei estarrecida, sem forças, Denilze quem cuidou de tudo, Jan sempre foi muito precavida, deixou tudo documentado, e como havíamos comprado a casa juntas, ela nem teve como entrar na justiça.
Não quero mais pensar nisso. Foi simplesmente inaceitável e desumano.
Buzinei e o caseiro seu Manuel veio correndo abrir o portão.
Após os cumprimentos, sua esposa perguntou-me se eu queria comer alguma coisa.
Agradeci dizendo que não, eu havia parado num restaurante na estrada e acabei comendo por lá.
Desfiz minha mala, tomei um banho tomei dois comprimidos de calmantes, adormeci quase instantaneamente, queria sonhar, queria ver Jan novamente nos meus sonhos, mas ela não apareceu, nem os meus sonhos!
Acordei no outro dia, por um momento senti-me confusa sem saber onde estava, aos poucos fui me encontrando, espreguicei-me na cama, o sol penetrava por entre as cortinas, o cheiro do mar invadia o ar.
Sai da cama, tomei um longo e delicioso banho, olhei no espelho, ainda bem abatida, os cabelos sem vida... Fechei os olhos e senti Jan quando me abraçando pelas costas, dizia:
“Você está linda! Seus cabelos maravilhosos adoro quando realça a cor deles.”
Não! Jan não merece que eu fique assim.
Ao chegar à sala a mesa estava posta para o café.
- Bom-dia. Já vou servir o café.
- Bom- dia Judite! Pode-me dizer aonde tem um bom salão de beleza?
- Logo aqui na rua de trás. O que a senhora vai querer para o almoço?
- Muito obrigada, mas, não quero dar trabalho Judite. Não se preocupe em cozinhar pra mim. Me diz onde posso almoçar, um lugar bom...
- A maioria dos restaurantes daqui está fechado, mas tem o “Chalés Beira-mar”que tem um bom restaurante, fica lá mais pro fim dessa avenida, é um lugar limpo e a comida é muito boa.
- Obrigada Judite.
Tomei o café e sai, fui direto para o salão de beleza.
Encurtei mais os cabelos, realcei a cor e com isso encobrir uns fios brancos que teimavam em aparecer.
Embora estivesse me esforçando, nada daquilo me importava, pra que? Se Jan não iria mais estar comigo!
Fui contornando a avenida olhando o mar, caminhei por um bom tempo, até que exausta sentei-me num banco defronte a praia, um vento frio provocou arrepios em meu corpo trazendo-me novas recordações...
Após termos assumido nosso namoro, e dado todo aquele auê, o pai de Jan nos ajudou pagando o aluguel de um apartamento para que pudéssemos estudar na universidade, faltando um ano para eu me formar, sofri um acidente quebrando a perna em dois lugares, tive que trancar a faculdade, foi outra fase difícil que tivemos que passar, Jan acabou se formando antes de mim, passados dois meses de sua formatura seu pai veio a falecer. Eu iniciando a faculdade, Jan ainda sem emprego, a mãe dela se recusou a pagar o aluguel, há não ser se ela me deixasse, diante isso tudo, a única solução foi Jan aceitar trabalhar no exterior, precisamente em Londres, um ano longe uma da outra, ela me ligava dizendo estar morrendo de frio, sentindo falta do meu calor e tudo mais.
Ela me mandava dinheiro para as despesas, e guardava um pouco, dizendo que seria para eu montar uma produtora.
Assim que eu me formei arrumei emprego de estagiária numa grande produtora, onde conheci Denilze, que já trabalhava lá.
Com nosso amor superamos todas essas crises, depois de alguns anos, o dono da produtora morreu, os herdeiros não se interessavam Denilze e eu acabamos por comprá-la.
Meus pais se conformaram em aceitar, ou melhor, a tolerar a nossa união e todos prosseguimos com nossas vidas e escolhas.
Notei que as lembranças vinham trazendo menos dor, embora eu lutasse para impedir o choro, o vazio...
Meu estômago começou a reclamar por alimento.
Olhei o relógio, 13h30min, levantei-me e vi que o “Chalés beira –mar” estava a poucos metros dali.
Entrei, o restaurante ficava na frente, com um vasto salão cheio de mesas, simples, porém bem decorado com objetos e quadros caiçaras, notei uma limpeza fora do comum, as toalhas quadriculadas em cada mesa uma cor, dando um toque colorido e agradável, vasos com plantas, coqueiros, o chão com piso de madeira encerados, aproximei do balcão e perguntei ao rapaz que usava um jaleco branco, se ainda serviam almoço, ele respondeu que sim.
Ao me virar esbarrei um tanto violentamente numa pessoa, acabamos caindo juntas no chão, senti que minha camiseta começava a tingir de vermelho.
- oh Meu Deus! Que desastrada que sou! Você se machucou? Fique sossegada isso não é sangue é o meu suco de tomate.
O rapaz correu para nos ajudar.
Levantei-me e vi a mulher, por uns instantes sua beleza me chamou atenção.
- As senhoras estão bem?- Perguntou o rapaz aflito.
- Me sinto molhada. Quer dizer... Minha camiseta...
- Venha vou te levar para o meu quarto... - Disse-me ela já em pé.
- Não. Não precisa.
- Precisa sim, molhou e manchou sua camiseta e a culpa é toda minha.
Sem eu esperar ela me pegou pela mão praticamente me arrastando por uma porta de vai-e-vem e seguimos por um corredor.
Fomos sair num jardim bem cuidado, a piscina, e mais um balcão com banquetas, um lugar muito agradável de ficar tanto de dia como de noite.
Caminhamos mais um pouco, pequenos chalés foram surgindo.
Ela parou defronte um, subimos alguns degraus.
- Aqui é o meu chalé.
Girou a chave na fechadura, e abriu a porta.
De fora parecia bem pequeno, mas ao entrar, era bem espaçoso, um pequeno hall separava a entrada do quarto, tinha uma grande cama de casal, uma varandinha que dava para o mar, ao lado o banheiro.
- Bonito aqui!
- Sim. Sempre quando venho pra cá só fico hospedada aqui. Esse chalé já se tornou cativo! Mas, deixa-me ver o estrago que fiz na sua camiseta.
- Nem precisa se incomodar... Já secou. Depois de lavar a mancha sai.
- Absolutamente!
Ela tirou o chapéu e seus cabelos caíram encaracolados, sob a parte das costas que a camiseta de alças não cobria, o decote generoso da camiseta deixando á mostra o colo do seio... Sua pele bronzeada refletida nos pêlinhos dourados no antebraço, nas partes posteriores das coxas desnudas num short jeans, tudo nela impregnava sexo, um calor, um fogo, tomou conta do meu corpo, ela se aproximou, a fragrância do seu perfume envolveu-me num puro êxtase de excitação, tive ímpetos de agarrá-la e mergulhar naquele decote, naquele corpo...
- Está sentindo alguma coisa?! Alguma dor?! – Perguntou ao me olhar.
“Será que ela percebeu?! – Pensei comigo.
- È... È que... Creio que é fome... Eu iria almoçar... Quando nos esbarramos...
- Meu Deus! Além de te derrubar, te manchar a camiseta, ainda atrapalhei seu almoço?!
- Não... Por favor, foi um mero acidente... Eu devia ter olhado antes de me virar...
- Tire sua camiseta. Tenho uma novinha que ainda nem usei. Vou te indenizar pagando seu almoço.
- Não. Não será necessário...
- Faço questão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário