Caso com o passado

Caso com o passado
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terça-feira, 22 de março de 2011

'ASSIM QUIS O DESTINO" último capítulo

Último capítulo

Estávamos prontas quando o barco chegou para nos buscar, há tempo a tempestade tinha cessado, no céu o crepúsculo se anunciava, embarcamos, sentamos, ela encostou a cabeça no meu ombro, abracei-a e em silêncio seguimos no barco pela imensidão azul do mar...

Olhei pela última vez a ilha que se distanciava cada vez mais...

A cabana que ainda abrigava os resíduos da nossa entrega, dos nossos cheiros, dos nossos gemidos, do nosso prazer...

As Palmeiras balançavam ao sabor do vento... Guardiãs silenciosas e fieis do nosso segredo que ali ficaria para sempre!

Estranhei Mirelle, não disse uma palavra até chegarmos ao seu chalé..

Instigada perguntei-lhe:

- Estais arrependida?

Ela me abraçou.

- Não. Foi maravilhoso.

Beijei-a ardentemente.

- Vou deixá-la para que descanse. Encontramos-nos amanhã?

- Prá que pensar no amanhã? Se tudo o que vivemos hoje valeu como uma vida inteira!

Fitei-a sem entender.

- Vá! Sei que também está cansada!

- Serei obediente linda e gostosa mulher!

Ela riu.

Quando me preparei para abrir a porta, ela me puxou para si e beijou-me profundamente, o desejo se aflorou em nossos corpos, colei meu ventre sob o dela.

Com muita relutância e arquejando ela me empurrou delicadamente.

- Vá.

- Vou. Mas, volto amanhã.

Voltei pra casa, sentindo a excitação do desejo atormentar meu corpo.

Tomei um banho, deitei e quase que imediatamente adormeci profundamente.

Desta vez sem ajuda de pílulas... Sem ajuda de bebidas!

- Como?! Ela foi embora?!

- Dona Mirelle partiu hoje bem cedinho, ela deixou uma carta para a senhora e esse pacote.

Peguei a carta, ainda atordoada... Por que ela fez isso comigo?! Por quê?!

Comecei a ler...

“Querida Alex...

Por favor, não fique com raiva de mim, verá mais tarde que foi melhor assim.

Não lhe contei, mais na verdade sou casada, tenho dois filhos e um neto.

Casei-me por amor, mas, depois de descobrir inúmeras traições de meu marido, cheguei a conclusão que o divórcio não seria favorável a nenhum de nós.

Portanto vivemos um casamento de aparências, não sou promíscua, mas gosto de ter um tempo só prá mim... Até que conheci você.

Não demorei muito para perceber seu desejo, confesso que no início, isso alimentou meu ego, até que comecei a te olhar diferente, gostando dos seus olhos, do seu rosto, de como essa mechinha do seu cabelo caia na sua testa, da sua boca...

Até então...

Mas, lá naquela simples cabana, naquele momento único, senti-me totalmente atraída!

Nunca senti prazer assim como senti com você.

Se eu ficasse, iria me apaixonar perdidamente e vice-versa, e essa paixão se transformaria em sofrimento para nós duas.

Jan apesar e com pesar, foi uma mulher de sorte, pois foi feliz e teve teu amor até o fim!

Dê continuidade nessa felicidade fazendo o melhor: Vivendo!

Deixei- te uma lembrança minha, creio que você irá gostar.

Jamais te esquecerei.

Seja Feliz.

Com Paixão

Mirelle”

Li e rê-li por diversas vezes, não acreditando que ela fez isso comigo.

Agora entendia o porque daquelas palavras, da maneira como ela agiu depois de voltarmos da ilha... Mirelle!

Peguei o pacote, agradeci o recepcionista e sai desanimada.

Caminhei de volta como se estivesse sem rumo, não sei o que doía mais se era o orgulho dela ter me dado o fora ou fato de ficar sozinha novamente.

Cheguei e sentei-me no banco da varanda, entre a raiva e a decepção rasguei o papel que envolvia o embrulho, e lá estava ela na pintura da tela, linda, em pé em cima dos rochedos da praia, os cabelos soltos pelo vento, uma cópia fiel dela, o contorno do corpo, do rosto, perfeito, como um retrato.

No canto estava escrito: “com paixão, M”

Tive ímpetos de rasgar, quebrar, jogar fora...Mas, a lembrança dos momentos que passamos na cabana puseram fim nesse tolo rompante.

Passei o resto do dia sem sair de casa, curtindo uma dissimulada “dor-de-cotovelo”, pensando, no que eu estava fazendo com a minha vida, nada mais iria trazer Jan de volta,e ficar me atirando em paixões movidas por pura atração também não iriam acrescentar, nada em minha vida,estou com 45 anos e está na hora de crescer “dona Alex”, ficar chorando não vai mudar a escolha do destino.

Mirelle tem razão, tenho é mais que viver e fazer o melhor com minha vida.

No outro dia bem cedo, agradeci me despedindo dos caseiros, e rumei de volta para São Paulo.

Prá surpresa minha Denilze havia mandado uma faxineira em casa, estava toda limpa, cheirosa, liguei avisando-a da minha volta.

Uma outra surpresa me aguardava ao chegar na produtora, Denilze e os funcionários, fizeram uma festinha de boa vinda, abraçando-os e agradecendo falei que o certo seria: “Bom recomeço”, passado esse momento festivos, retornamos ao trabalho, Denilze acompanhou-me até a minha sala.

- Hummm! Está com outra carinha! Mais bonita! Bronzeada..

Enquanto ela falava eu tirava o papel que embrulhava o quadro para pendurar na parede.

- Que mulher linda nessa pintura! Quem é ela?!

Por um momento fiquei tentada para contar...mas, pra que? Um segredo para se tornar segredo tem que permanecer sendo um segredo.

- Não sei! – respondi evitando olhar para ela- Comprei-o numa feirinha de artes.

- È linda! Ela existe ou foi fruto da imaginação do artista?

- Quem sabe?

Denilze me olhou desconfiada.

- Que foi? –Perguntei-lhe.

- Você parece estar me escondendo algo...

- Deixe-me ver... Quer me revistar? – Brinquei.

Ela riu e depois fitou-me com ar carinhoso e maternal.

- Alex! Estou feliz por vê-la melhor, sei o quanto é difícil e doloroso mas, a vida continua e não importa a dor que ela nos provoca.

- Sim. Eu sei. Muito obrigada amiga pela compreensão e pela força!

Nos abraçamos.

- Agora chega de conversa. Ao trabalho.

A semana passou, me atirei dessa vez de cabeça no trabalho, já não doía tanto voltar para casa, Mirelle dividia com Jan os meus tormentos, meus momentos de saudades...

No fim-de-semana, tomei uma decisão, de que adiantaria ficar guardando as roupas, todas as coisas de Jan, abri o guarda-roupa, tirei tudo dela de dentro,fui olhando cada uma delas, as que eu adorava vê-la usando...

Não pude conter as lágrimas, chorei abraçando uma de suas roupas... Chorei de saudades...Que saudades minha amada!

Decidida, sequei meu rosto e continuei a colocar nas caixas todos os objetos de uso de Jan para doar.

A campainha tocou, fui atender era Denilze e Val.

Elas falaram que era uma decisão certa tirar e doar as coisas de jan.

Levamos para um centro de assistência social.

A noite teria um coquetel de um lançamento de uma marca que nossa produtora produziu.

Toda a mídia estava presente, convidados etc.

Quase no fim, Denilze me chamou.

- Alex, quero te apresentar uma amiga.

Três mulheres estavam a nossa frente, um cabelo cacheados abaixo dos ombros me chamou atenção e fez meu coração acelerar...

“Seria Mirelle?” – Pensei comigo.

As mulheres se voltaram.

- Oi Denilze.

- Alex, essa é Beatriz.

- Como vai? È um prazer conhecê-la. – Apresentei-me ainda sentindo o coração batendo forte, seus cabelos lembravam os da Mirelle.

O rosto diferenciava, com uma beleza delicada, olhos castanhos, atraente.

- O prazer é todo meu em conhecê-la!

O calor do toque de sua mão na minha me agradou.

Alerta! Não. Eu havia decidido não me envolver, deixar as coisas acontecerem.

Saímos dali e fomos num restaurante jantar.

Beatriz me encantou, era divertida, inteligente, simpática e muito atraente.

Na saída do restaurante, Denilze e Val insistiram para que eu fosse com elas dar uma esticada na noite.

Beatriz me olhou, um olhar convidativo.

Resisti.

Disse que estava cansada e que tinha um projeto de um evento para analisar.

Percebi que Beatriz ficou desapontada.

Despedi-me delas.

Denilze e Val juraram, creio que com os dedinhos cruzados nas costas, que não tinha sido um “arranjo” delas o aparecimento de Beatriz.

Fiz de conta que acreditei.

Os dias passaram normais, tendo momentos em que a saudade e a falta de Jan me afligia sendo impossível conter as lágrimas.

Uma noite em casa lendo um livro, meu celular tocou...

- Alô?

- Alex? Beatriz, lembra? Ou se esqueceu de mim?

- Absolutamente. Como vai?

- Estou muito bem. E chegando de mudança, sai do Rio, agora estou voltando para São Paulo.Vou direta no assunto... Quer jantar comigo amanhã?

Uma desculpa para recusar já se formava em minha resposta.

- Oi ainda está ai? – Perguntou-me devido ao meu silêncio.

Por que não?! – “Pensei comigo”

- Estou sim e aceito jantar contigo.

Combinamos o horário e o restaurante.

Ao desligar o celular...

- Como ela tinha o meu numero?! – Perguntei pra mim mesma.

- Dona Denilze!

Aprendi que a vida nos reserva além da dor, novas oportunidades para sermos felizes.

A melhor de todas: Viver!

FIM

INEZ MARCONDES

FLORIANÓPOLIS 02/022011

"ASSIM QUIS O DESTINO" Quinto capítulo

Quinto capítulo

- Sim, uma vez por ano gosto de passar um tempo aqui, me refugiar...

Estávamos almoçando na varanda do seu chalé, no canto havia uma tela no início de um esboço sob um cavalete.

- És uma artista?

- A pintura me completa, mas não sou uma artista, adoraria poder ser uma, porém sou uma simples amadora. È um passatempo que adoro.

- Estais sendo apenas modesta ou escondendo o “ouro”?

- Quem me dera! E você? Uma mulher bonita, nesta encantadora cidadezinha litorânea, está sozinha? Ou acompanhada do namorado, marido...

A lembrança de Jan veio à tona, por um momento, senti como se tivesse traindo-a.

- Disse algum inconveniente?

- Desculpe-me. Mas, tenho que ir... Obrigada pelo almoço.

Levantei-me e sai em disparada.

- Espere!

Fui correndo pela calçada, precisava fugir daquela tentação, daquela mulher...

Cheguei em casa, fui direto para o banheiro, fiquei debaixo do chuveiro, tinha que apagar aquele fogo, o fogo que aquela mulher encandeou no meu corpo, nas minhas entranhas...

Depois do banho, vesti-me, fui para sala, as nuvens haviam encoberto o sol, deixando o ambiente na penumbra, abri uma garrafa de vinho e fiquei sentada no sofá, não conseguia tirar Mirelle, era o seu nome, da cabeça, o desejo acendido por ela, formigando-me... Atormentando-me...

Fui bebendo... Bebendo...

Vinho... Desejo... Traição... Culpa... E Mirelle!

- Perdoa-me Jan! Perdoa-me! Não vou te trair! Não vou...

____________________________

Logo na parte da manhã, lá estava eu na recepção da pensão, perguntando por Mirelle.

O recepcionista informou-me que ela se encontrava na praia em frente.

Na praia praticamente deserta, tendo apenas alguns pescadores concertando seus barcos ancorados na areia, ela se destacava... Concentrada, pintava a tela no cavalete...

Parei, admirando o contorno do seu belo corpo que o fino e quase transparente saída de praia que ela vestia por cima do short, deixava transparecer, os cabelos balançando por baixo da aba do chapéu pelo atrevido vento..

Sentindo observada ela, se voltou, vendo-me, correu em minha direção.

Meu coração disparou com a explosão de desejo... De tesão que aquela mulher me causava.

- Alex! Que bom te ver. Deixou-me preocupada ontem saindo daquele jeito.

- Bom-dia... Eu... Vim me desculpar... Portei-me como uma tola... Mal-educada...

- Vamos esquecer o dia de ontem! Que tal começarmos tudo de novo? Com um belo café. Já tomou café?

- Eu não quero atrapalhar... Tu estavas pintando...

- Sabe adoro esse seu sotaque.

- Sou do sul e agora moro em São Paulo... Misturou tudo...

- Vem vamos tomar um belo e delicioso café.

Voltamos à praia depois do café caminhamos até um ponto aonde tinha as pedras onde as ondas se quebravam lançando suas espumas brancas.

Sentamos, ela perto de mim... Seu cheiro... Eu me controlando...

- Ontem... Quando me perguntastes de alguém na minha vida...

Ela me encarou.

- Ele está aqui com você?

- Não é ele! È... Era uma namorada... Minha companheira...

- Uma namorada?!

- Se importa por eu gostar de mulher?

- Não sou preconceituosa. Vocês estão brigadas? Por isso que está sozinha aqui?

Levantei-me. Ela levantou também e veio até a mim...

- Foi tão sério assim? – Perguntou-me.

Falar de Jan, pensar em Jan, nesse momento, com Mirelle acendendo meus desejos era muito difícil.

Ela tocou-me no ombro, seu simples toque provocou arrepios por todo meu corpo, afastei rapidamente.

- Foi sério! Mas, não uma briga. Ela... Ela... Morreu!

- Alex!

Contei-lhe tudo, desde o início, de até que a morte nos separou!

- Uma bela história de amor, independente de todo esse final de dor!

Comovida ela me abraçou, deixei-me abraçar, e ficamos ali abraçadas... Ela ternamente e eu contendo o desejo de deitá-la e possuí-la vorazmente!

Passamos a nos encontrar todos os dias, às vezes me dava impressão que ela notava meu desejo por ela, mesmo me esforçando ao Maximo para me controlar, cheguei ao ponto de sentir ciúmes de quando algum homem olhava para ela.

Resolvemos um dia ir até uma pequena ilha não muito longe, o barco nos deixou com hora marca para vir nos buscar.

A ilha era linda, areia macia, branquinha, as palmeiras, a vegetação dava um toque exótico, alguns pescadores tinham construído um pequena cabana para se abrigarem em tempos de tempestades no mar.

Levamos uma cesta com alimentos, água e vinho.

Tomamos sol, nadamos, brincamos como duas adolescentes.

Até então eu não sabia nada dela, exceto que um tempo ela mora na Europa por um tempo e outro aqui no Brasil.

Depois da refeição tomávamos um delicioso vinho branco, quando de repente uma nuvem negra se formou anunciando uma tempestade, nem deu tempo para corrermos, caiu um aguaceiro, juntamos nossas coisas e fomos nos abrigar na cabana.

Depositamos nossas coisas numa pequena mesinha de madeira que havia num canto, peguei nossas toalhas e começamos a nos enxugar.

- Deixe que eu te ajude. – Disse-me ela, começando a passar a toalha em mim.

Eu também comecei a enxugá-la...

Não sei se foi o efeito do vinho... Ou o efeito do desejo contido na marra que fez eu...

Estávamos frente a frente, parei de enxugá-la...

Olhei para ela nos meus olhos deveriam estar refletindo tudo o que eu estava sentindo...

Ela não se moveu quando aproximei minha boca da dela.

As toalhas caíram...

Minha língua procurou e encontrou sua língua num beijo voraz, incontido...

Minhas mãos foram descendo, acariciando desesperadas, ela correspondendo, me apertando, se esfregando, fui ajudando a se livrar de suas roupas...

Seus seios saltaram firmes, tesos quando tirei a parte de cima do seu biquíni, ouvi seu gemido rouco, ao tocá-los com a boca sugando-os, faminta, desesperada... Fui deitando-a, beijando seu corpo todo, ela também me ajudando a se livrar das minhas vestes...

- Mirelle! Mirelle!

Fui descendo com minha boca...

Até chegar ao meio de suas coxas, ela se contorcia como se estivesse no cio enlouquecendo-me ainda mais de tesão...

Minha língua se movia deixando seu clitóris intumescido, ela implorando para eu não parar...

Quis judiar dela assim como o desejo me judiou por todos esses dias...

Detive-me e virei-a de bruços, comecei a beijar seu pescoço, sua nuca, vendo os arrepios que causava cada toque meu, deitei-me em cima dela, esfregando meu sexo nas suas nádegas, molhando-a com minha excitação...

Com a mão debaixo dela procurei seu sexo, meu dedo alcançou seu destino, penetrando em suas partes macias, quentes, molhadas, totalmente molhada de tesão...

Comecei a tocar em seu clitóris novamente...

Continuei até fazê-la gozar deliciosamente fazendo-a soltar um grito de prazer!

Virei-a de frente, beijei-lhe a boca, abri suas pernas, e encaixei-me no meio delas...

Soltei um gemido alto ao sentir meu sexo colado no dela ainda mais molhada com o líquido do seu gozo...

Suas mãos apertavam meu corpo naquele vai e vem frenético... Com ela gozando novamente, explodi num gozo que parecia interminável...

Abraçadas ficamos deitadas, ouvindo as fortes e aceleradas batidas dos nossos corações...

Passados alguns minutos...

- Foi a primeira vez! – Disse-me ela quebrando o silêncio.

- Que fez amor com uma mulher?

- Sim!

- E como foi pra você?

No lugar da resposta, ela veio e me beijou a boca, meu pescoço, descendo até meus seios que já correspondia...

Quando sua boca tocou meus mamilos...

Começamos tudo deliciosamente de novo!

"ASSIM QUIS O DESTINO" Quarto capítulo

Quarto capítulo

Denilze abriu a porta, um misto de alívio e alegria transpareceu em seu rosto.

- Alex! Alex! Graças á Deus! – Me abraçou levando-me para dentro.

- Onde você estava?! Estou te ligando há horas! Por que não atende esse bendito celular?! Perdoe-me! Eu não devia ter falado com você daquela maneira... Eu não sabia mais o que fazer! Não agüentava mais te ver sofrendo desse jeito!

- Calma! Você está com razão! Eu não posso ficar alimentando essa tristeza, esse vazio, tenho que reagir... Pensei muito, e como você disse preciso de umas férias, um tempo longe, para me recompor, para aceitar que... Que Jan. Que ela não volta mais!

Comecei a chorar.

Denilze me abraçou.

- Minha querida! Vai ficar tudo bem! Deus nos deu o tempo como o único remédio para aliviar esse tipo de dor. A dor se vai para dar lugar a uma grande e confortante saudade! Você ficando bem, certamente Jan onde ela estiver ficará também!

- Não se preocupe! Darei conta de tudo aqui.

Quero somente que fique bem e volte inteira. A vida continua Alex!

- Ficarei bem. E a Val quando volta?

- Nesse fim de semana, estou com tanta saudade!

- Quer dizer então que a casa vai pegar fogo! – brinquei.

- Maravilha! Estou vendo sinal de melhora. Estou subindo pelas paredes! È melhor ir... Ligue-me quando chegar, o que precisar fale com os caseiros certo?

- Ligarei.

Sai do carro. E dei um forte abraço em Denilze.

- Muito obrigada minha amiga!

- Se cuida! Quero apenas te ver bem! Boa viagem.

Novamente entrei no carro, dei partida, acenei mais uma vez e segui viagem.

A viagem foi tranqüila, cheguei um pouco depois do almoço, a casa ficava numa avenida em frente ao mar, fora da temporada a cidade ficava quase deserta com apenas poucos turistas, que vinham assim como eu fugir para poder se libertar.

Denilze e Val, sua companheira há cinco anos, havia nos convencido a comprar uma casa aqui, estávamos para fechar negócio quando descobrimos o tumor em Jan.

Foi num exame de rotina, não havia sintomas, nem um indicio sequer deste bendito, há não ser uma forte dor de cabeça, não muito constante que pensávamos ser enxaqueca, não tinha muito mais o que fazer, em oito meses de luta, ele venceu e tirou a vida do meu amor, a família de Jan já tinha um histórico dessa doença, tios, tias, o pai, um militar austero, mas surpreendentemente aceitou numa boa quando eu e ela ao passarmos no vestibular decidimos assumir para nossos pais o nosso relacionamento e que iríamos nos casar, meus pais e a mãe dela entraram em desespero, o pai dela nos deu apoio, quanto aos meus ficaram um bom e logo tempo sem falar comigo.

A mãe de Jan, nunca aceitou, quando seu pai faleceu, Jan ficou arrasada, mas, nem nesse momento triste e difícil sua mãe mudou de opinião, dona Ester, só se aproximou quando soube que a filha estava doente, mesmo assim mal falava comigo, logo depois do enterro de Jan, ela quis entrar com pedido dos bens da Jan, a casa, enfim... Fiquei estarrecida, sem forças, Denilze quem cuidou de tudo, Jan sempre foi muito precavida, deixou tudo documentado, e como havíamos comprado a casa juntas, ela nem teve como entrar na justiça.

Não quero mais pensar nisso. Foi simplesmente inaceitável e desumano.

Buzinei e o caseiro seu Manuel veio correndo abrir o portão.

Após os cumprimentos, sua esposa perguntou-me se eu queria comer alguma coisa.

Agradeci dizendo que não, eu havia parado num restaurante na estrada e acabei comendo por lá.

Desfiz minha mala, tomei um banho tomei dois comprimidos de calmantes, adormeci quase instantaneamente, queria sonhar, queria ver Jan novamente nos meus sonhos, mas ela não apareceu, nem os meus sonhos!

Acordei no outro dia, por um momento senti-me confusa sem saber onde estava, aos poucos fui me encontrando, espreguicei-me na cama, o sol penetrava por entre as cortinas, o cheiro do mar invadia o ar.

Sai da cama, tomei um longo e delicioso banho, olhei no espelho, ainda bem abatida, os cabelos sem vida... Fechei os olhos e senti Jan quando me abraçando pelas costas, dizia:

“Você está linda! Seus cabelos maravilhosos adoro quando realça a cor deles.”

Não! Jan não merece que eu fique assim.

Ao chegar à sala a mesa estava posta para o café.

- Bom-dia. Já vou servir o café.

- Bom- dia Judite! Pode-me dizer aonde tem um bom salão de beleza?

- Logo aqui na rua de trás. O que a senhora vai querer para o almoço?

- Muito obrigada, mas, não quero dar trabalho Judite. Não se preocupe em cozinhar pra mim. Me diz onde posso almoçar, um lugar bom...

- A maioria dos restaurantes daqui está fechado, mas tem o “Chalés Beira-mar”que tem um bom restaurante, fica lá mais pro fim dessa avenida, é um lugar limpo e a comida é muito boa.

- Obrigada Judite.

Tomei o café e sai, fui direto para o salão de beleza.

Encurtei mais os cabelos, realcei a cor e com isso encobrir uns fios brancos que teimavam em aparecer.

Embora estivesse me esforçando, nada daquilo me importava, pra que? Se Jan não iria mais estar comigo!

Fui contornando a avenida olhando o mar, caminhei por um bom tempo, até que exausta sentei-me num banco defronte a praia, um vento frio provocou arrepios em meu corpo trazendo-me novas recordações...

Após termos assumido nosso namoro, e dado todo aquele auê, o pai de Jan nos ajudou pagando o aluguel de um apartamento para que pudéssemos estudar na universidade, faltando um ano para eu me formar, sofri um acidente quebrando a perna em dois lugares, tive que trancar a faculdade, foi outra fase difícil que tivemos que passar, Jan acabou se formando antes de mim, passados dois meses de sua formatura seu pai veio a falecer. Eu iniciando a faculdade, Jan ainda sem emprego, a mãe dela se recusou a pagar o aluguel, há não ser se ela me deixasse, diante isso tudo, a única solução foi Jan aceitar trabalhar no exterior, precisamente em Londres, um ano longe uma da outra, ela me ligava dizendo estar morrendo de frio, sentindo falta do meu calor e tudo mais.

Ela me mandava dinheiro para as despesas, e guardava um pouco, dizendo que seria para eu montar uma produtora.

Assim que eu me formei arrumei emprego de estagiária numa grande produtora, onde conheci Denilze, que já trabalhava lá.

Com nosso amor superamos todas essas crises, depois de alguns anos, o dono da produtora morreu, os herdeiros não se interessavam Denilze e eu acabamos por comprá-la.

Meus pais se conformaram em aceitar, ou melhor, a tolerar a nossa união e todos prosseguimos com nossas vidas e escolhas.

Notei que as lembranças vinham trazendo menos dor, embora eu lutasse para impedir o choro, o vazio...

Meu estômago começou a reclamar por alimento.

Olhei o relógio, 13h30min, levantei-me e vi que o “Chalés beira –mar” estava a poucos metros dali.

Entrei, o restaurante ficava na frente, com um vasto salão cheio de mesas, simples, porém bem decorado com objetos e quadros caiçaras, notei uma limpeza fora do comum, as toalhas quadriculadas em cada mesa uma cor, dando um toque colorido e agradável, vasos com plantas, coqueiros, o chão com piso de madeira encerados, aproximei do balcão e perguntei ao rapaz que usava um jaleco branco, se ainda serviam almoço, ele respondeu que sim.

Ao me virar esbarrei um tanto violentamente numa pessoa, acabamos caindo juntas no chão, senti que minha camiseta começava a tingir de vermelho.

- oh Meu Deus! Que desastrada que sou! Você se machucou? Fique sossegada isso não é sangue é o meu suco de tomate.

O rapaz correu para nos ajudar.

Levantei-me e vi a mulher, por uns instantes sua beleza me chamou atenção.

- As senhoras estão bem?- Perguntou o rapaz aflito.

- Me sinto molhada. Quer dizer... Minha camiseta...

- Venha vou te levar para o meu quarto... - Disse-me ela já em pé.

- Não. Não precisa.

- Precisa sim, molhou e manchou sua camiseta e a culpa é toda minha.

Sem eu esperar ela me pegou pela mão praticamente me arrastando por uma porta de vai-e-vem e seguimos por um corredor.

Fomos sair num jardim bem cuidado, a piscina, e mais um balcão com banquetas, um lugar muito agradável de ficar tanto de dia como de noite.

Caminhamos mais um pouco, pequenos chalés foram surgindo.

Ela parou defronte um, subimos alguns degraus.

- Aqui é o meu chalé.

Girou a chave na fechadura, e abriu a porta.

De fora parecia bem pequeno, mas ao entrar, era bem espaçoso, um pequeno hall separava a entrada do quarto, tinha uma grande cama de casal, uma varandinha que dava para o mar, ao lado o banheiro.

- Bonito aqui!

- Sim. Sempre quando venho pra cá só fico hospedada aqui. Esse chalé já se tornou cativo! Mas, deixa-me ver o estrago que fiz na sua camiseta.

- Nem precisa se incomodar... Já secou. Depois de lavar a mancha sai.

- Absolutamente!

Ela tirou o chapéu e seus cabelos caíram encaracolados, sob a parte das costas que a camiseta de alças não cobria, o decote generoso da camiseta deixando á mostra o colo do seio... Sua pele bronzeada refletida nos pêlinhos dourados no antebraço, nas partes posteriores das coxas desnudas num short jeans, tudo nela impregnava sexo, um calor, um fogo, tomou conta do meu corpo, ela se aproximou, a fragrância do seu perfume envolveu-me num puro êxtase de excitação, tive ímpetos de agarrá-la e mergulhar naquele decote, naquele corpo...

- Está sentindo alguma coisa?! Alguma dor?! – Perguntou ao me olhar.

“Será que ela percebeu?! – Pensei comigo.

- È... È que... Creio que é fome... Eu iria almoçar... Quando nos esbarramos...

- Meu Deus! Além de te derrubar, te manchar a camiseta, ainda atrapalhei seu almoço?!

- Não... Por favor, foi um mero acidente... Eu devia ter olhado antes de me virar...

- Tire sua camiseta. Tenho uma novinha que ainda nem usei. Vou te indenizar pagando seu almoço.

- Não. Não será necessário...

- Faço questão.

"ASSIM QUIS O DESTINO" Terceiro capítulo

Terceiro capítulo

Entrei no carro sem saber para onde ir, para casa não queria, fiquei dirigindo sem rumo, nem o trânsito louco me incomodava, não soube por quanto tempo fiquei dirigindo e instintivamente fui parar num lugar onde eu e Jan adorávamos ir, era num parque florestal.

Desci do carro, comecei a caminhar como era um dia de semana, não tinha quase ninguém, nós fazíamos pic-nic sempre que podíamos, escolhíamos um lugar bem distante e discreto para ficarmos, estendíamos a toalha com os quitutes que trazíamos, um bom vinho...

Caminhei até onde ficávamos, sentei-me debaixo da mesma arvore que nos dava sombra e testemunhava nossa felicidade.

As recordações vieram novamente à tona, tornando reais os momentos que passamos ali...

- Vem Alex! A água está uma delicia...

Jan entrava no riacho de águas cristalinas, brincando, espalhando-as por todos os lados feito uma criança, quando eu entrava, me aproximava abraçando-a, ela se transformava na mulher apaixonada, ardente e sedutora, linda, pele branca, bronzeada pelo sol, olhos verdes que as vezes ficavam azuis, tinha um lindo rosto, quando sorria duas covinhas se formavam ao lado da boca...

Foi o que me chamou atenção ao nos conhecermos, num dia de domingo na igreja ao fazermos a crisma, eu com 15 e ela com 14, ambas de vestidinho branco com rendas, nos olhamos, ela sorriu prá mim, fiquei encantada com aquelas covinhas que se acentuavam iluminando seu rosto de beleza e simpatia, após a crisma fomos para o salão paroquial onde iriam servir bolos e refrigerantes.

- Oi, como se chama?- Ela veio até a mim.

- Me chamo Alex e o seu?

- Alex?! Alex não é nome de homem?!

- Não. Não é não sua boba! – Disse-lhe envergonhada- Serve para mulher também.

Minha mãe viu num filme que a mocinha se chamava Alex, ela gostou e escolheu esse nome para mim.

- È estranho, mas eu gostei também fica lindo em você! Eu me chamo Janice.

- Posso te chamar de Jan? Fica mais fácil...

- Ta. Pode sim sua preguiçosa.

Rimos as duas e desde então não se largamos mais.

Um ano depois nas férias do fim de ano, fomos para uma cidade do litoral passar uns dias, os pais de Jan não a deixou vir conosco, nos despedimos chorando arrasadas.

Eu adorava ir para a praia, no entanto tudo aquilo ficou sem sentido, não via alegria em nada e não entendia o porquê de ficar pensando em Jan o tempo todo, sentindo a falta dela a ponto de não conseguir dormir direito, imaginava ela com as outras meninas, ou pior namorando algum garoto, com espanto percebia que estava sentia ciúmes de Jan.

Meus pais ficaram preocupados comigo, achando que eu estaria doente e para evitar maiores preocupações comecei a disfarçar minha tristeza.

Uma tarde, eu estava sentada na areia olhando o mar.

A praia estava deserta, pois o tempo esfriara neste dia e uma fina fria chuva caia, afastando os banhistas, para mim estava ótimo, assim poderia pensar, chorar a falta da minha querida amiga.

Absorta em meus pensamentos, não percebi que alguém me olhava divertida, até ouvir sua voz...

- Olá! Atrapalho seu namoro com o mar?

- Não! Claro que não! Não quer me ajudar á namorá-lo?

- Você não fica com ciúmes?

- Não muito!

- Então aceito! Jan você veio que saudades!

- Meus pais viram como fiquei triste e sozinha resolveram então me deixar vir, meu irmão me trouxe. Alex, que saudades senti de você minha querida amiga!- E nos abraçamos felizes.

Ficamos conversando horas, até quase anoitecer.

A alegria voltava á minha vida, minha mãe fez um peixe delicioso, após o jantar arrumamos a cozinha, aproveitamos que a chuva tinha parado e fomos dar uma volta na praia que agora exibia uma linda noite com o céu estrelado, a lua dando uma cor prateada no mar com seu luar, as ondas indo e vindo calmas, serenas, caminhávamos de mãos dadas, em silêncio, as palavras não eram necessárias, não naquele momento, pois tudo o que sentíamos se traduziam nos apertos calorosos das nossas mãos entrelaçadas.

Na hora de dormir, como não tinha outro quarto disponível, Jan ficou comigo.

Arrumamos nossas cobertas, estava meio frio, rezamos e nos demos boa-noite.

- Você está tremendo. Está com frio? – Perguntou-me Jan.

- Sim. Não tem cobertor aqui. - Respondi.

- Vou abraçar você assim me esquento, também estou com frio.

Eu estava de costas para ela, ao me abraçar senti seu calor, sua respiração na minha nuca, uma quentura gostosa e estranha começou a invadir meu corpo.

- Jan? – Chamei baixinho.

- Estou ouvindo diga.

- Estou sentindo uma coisa estranha...

- O que?!

- Não sei o que é!

- Eu também! È só eu me encostar em você que aumenta mais e mais... È tão... Gostoso... Você não acha?

- O que será?! Isso não acontece só com as meninas e os garotos, não é o que elas vivem falando?

- Será a mesma coisa?! Você já beijou algum garoto na boca?

- Uma vez, o JJ me beijou de surpresa, que nojo! Aquele que tem mau-hálito lembra dele? Dei um murro na cara dele. E você já beijou na boca?

- Ainda não. Eu tenho mau-hálito?

- Não! Quer que eu sinta?

- Quero.

Virei-me para ela, a lua banhava o quarto através da vidraça, Jan olhava para mim, estava tão linda, linda como nunca.

- Você está tão linda Jan!

- Você também Alex! O que está acontecendo com a gente?!

- Eu... Eu não sei Jan! Juro que não sei! Só sei que estou com uma vontade louca de te beijar.

- Eu também Alex! Muita!

Nossas bocas timidamente se aproximaram, no início suavemente... Ternamente... Lábios com lábios e foram se abrindo, famintas, até nossas línguas se acharem, se tocarem, nos querendo, nos desejando...

Nossas mãos percorrendo nossos corpos, ajudando a nos livrar de nossos pijamas, os biquinhos de nossos seios em formação durinhos, tesos...

Ficamos as duas nuas, duas ninfas virgens sedentas de desejos, dominadas pela estranha e mal compreendida paixão.

Contemplamos nossos corpos nus, a mão de Jan acariciando meus seios, depois sua boca descendo pelo meu pescoço, deixando uma trilha de arrepios, quando senti sua boca, sua língua tocar o bico do meu seio quase desfaleci de tanto prazer, segurei firmemente sua cabeça, mantendo sua boca em mim, deitamos e ela continuou descendo sua boca, sua língua, deslizando sob minha pele arrepiada até o meu ventre que arqueava...

Sua língua chegando ao destino desejado... Não pude conter o gemido alto ao senti-la... Depois foi minha vez de explorar seu corpo, de sentir na boca o gosto de sugar seus mamilos, a maciez de sua pele, fui beijando devagar, saboreando cada parte, fazendo-a gemer a cada toque, até alcançar seu ventre, minha língua voraz, faminta provou do prazer que ela teve ao fazer o mesmo comigo.

O amanhecer já se despontava quando exaustas, saciadas e felizes por descobrir e dar prazer uma á outra dormimos...

Dormimos abraçadas, sem culpa, sem pudor, sem remorsos!

Levamos um susto quando minha mãe bateu na porta do quarto.

- Meninas acordem! O café está pronto, estamos indo pra praia.

- Nós iremos depois mãe obrigada.

- Não façam bagunça na cozinha. Tchau.

Depois de certificarmos que estávamos sozinhas na casa, descobrimos que nossos corpos se queriam mais e mais...

- Quer ser minha namorada Jan?

- Quero! E você Alex? Quer ser minha namorada?

- Por toda a minha vida!

O gorjear de um pássaro me tirou das lembranças, olhei ao redor, o vento balançando as folhas das arvores, o céu azul... Suspirei profundamente...

Querido Deus, pensei, Tirastes minha amada Jan! Que tenho agora? Que me darás em troca?! Como vou viver daqui pra frente sem ela?! Diz-me?!Ensina-me a viver sem ela!

Por favor, eu imploro ensina-me a viver sem ela!

Adormeci, e no meu sonho Jan apareceu, nos seus olhos uma sombra de tristeza, ela me abraçou e disse: “Toda felicidade que vivemos juntas deixará de existir se continuar assim! Estarei com você mesmo que seu coração se abra para outra pessoa, mas nosso amor será eterno! Necessito que sejas feliz para que eu possa ser aqui! Sempre te amarei!”

Acordei sobressalta, com o coração descontrolado, foi tão real que pude até sentir seu calor, seu perfume, seu abraço...

Levantei e fiquei chamando por ela...

- Jan! Jan!

"ASSIM QUIS O DESTINO" Segundo capítulo

Segundo capítulo

Vencida pelo cansaço e pelo efeito do vinho acabei adormecendo ali no sofá.

Acordei assustada no meio da madrugada, sentei-me, uma latejante dor de cabeça começava, o estômago reclamando vazio...

Não sentia vontade de comer.

Com uma força sobre-humana levantei-me do sofá e sem acender a luz me dirigi ao banheiro, tirei a roupa, o cesto de roupas sujas estava já transbordando, alias a casa toda estava uma bagunça, necessitando urgente de uma boa limpeza, quando Jan morreu, fui me deixando levar, meus pais me levaram para a casa deles, nem sei por quanto tempo fiquei lá, só sei que fiquei o tempo todo dopada, no meu antigo quarto, queria morrer, ir ao encontro dela! Queria ficar com ela! Com o meu amor!

Minha mãe me vigiando o tempo todo com receio de eu fazer uma bobagem.

- Eu sinto minha filha, por ela e agora mais por você. Não era do meu gosto essa... Esse seu casamento... Mas, tudo bem... Acabei aceitando o seu pai também, nós víamos o quanto você estava feliz, mas agora quem sabe você com o tempo esquece ela, e encontra, conhece um homem bom, direito e se case de verdade como manda a igreja...

Nem deixei terminar, meu pai estava de pé parado na porta do quarto.

- Tenho que ir! Tenho que sair daqui! Agradeço mas tenho que ir!

- Filha!...

Arrumei minhas coisas numa mala e sai, mas antes, pude ouvir meu pai falando a ela:

- Você viu a besteira que acabou de falar?!

- Mas, eu não falei nada demais! Filha! Ela não pode ir ainda!

- Deixe. Você falando essas coisas não vai ajudar em nada!Não está vendo o sofrimento que ela está passando?!

Minha mãe correu para o portão, seguida por meu pai.

Eu estava colocando minha mala dentro do carro.

- Filha! Filha! Não vá embora!

- Alex! Você não pode ir embora desse jeito! Sua mãe não falou por mal...

- E você papai? Também pensa assim?

- Tudo o que penso e desejo para você filha é que seja feliz!

- Obrigada papai. Tenho que ir agora.

- Filha pelo menos ligue quando chegar. Vá com Deus!

Entrei no carro, dei a partida, nem sei como consegui dirigir até a minha cidade, Denilze me levou para a casa dela, onde fiquei por um bom tempo.

Com a cabeça, latejando pela dor, entrei embaixo do chuveiro e fiquei sentindo a água cair sobre mim, se misturando com minhas lágrimas, quantas e quantas vezes fizemos amor aqui...

Parecia que meu corpo se movia alheio a minha vontade, mecanicamente, enxuguei-me, escovei os dentes, olhei-me no espelho, estava abatida, com olheiras profundas, indiferente ao meu estado físico, terminei de escovar os dentes, peguei duas aspirinas tomei e fui para o quarto, deite-me abraçada com o travesseiro de Jan, sentindo seu cheiro, que saudades do seu calor, do seu amor, do seu corpo coladinho ao meu... Jan! Jan!

Acordei no outro dia com o toque insistente da campainha, acordei assustada, Denilze me chamava aflita...

Vesti um roupão e fui abrir a porta.

- Quer me matar de susto?!

- Bom- dia!

Denilze entrou.

- Que bagunça!

- A casa toda está um lixo! – falei indiferente.

- Vá se arrumar tem como se fazer um café nessa casa ou teremos que tomar numa padaria?

Quando acabei de me arrumar, o aroma do café invadiu o ar.

Entrei na cozinha que estava com louças sujas na pia, Denilze olhava tudo consternada.

- Isso tudo e você Alex não pode continuar assim.

- O que me importa?! – Respondi sentando-me.

Denilze me entregou uma xícara de café.

- Não tem nada para se comer aqui.

Ela arrastou uma cadeira se sentou e me olhou.

- Até quando?

Tomei meu café e levantei-me.

- Estamos atrasadas! Vou pegar minha bolsa para irmos.

Denilze não me falou mais nada durante todo o trajeto para a empresa, nós tínhamos uma produtora que depois de muito trabalho nós a tornamos sólida no mercado.

Tentei me concentrar no trabalho a manhã inteira, mas não conseguia, nada daquilo me interessava, tinha perdido o gosto de tudo que significava pra mim, e desse tudo Jan era a principal!

Durante uma importante reunião, eu fiquei ali sentada, apática, alheia, sentia os olhares, não suportando mais, pedi licença e sai, fui para minha sala.

Passado um tempo, Denilze entrou, fechou a porta com força. Olhei para ela admirada, mas não dei importância.

Ela parou na minha frente, estava furiosa.

- Até quando?! Até quando vai continuar a sentir pena de você?!

Não respondi.

- Acha que é a única pessoa que perdeu uma pessoa amada?! Jan se foi e foi terrível para nós todos, principalmente para você, todos nós aqui entendemos sua dor, mas a vida continua! Nós temos uma empresa e muitas pessoas dependem de nós aqui, além de que eu e você também dependemos daqui, portanto minha querida amiga e sócia pare de sentir pena de si mesma, Jan não deve estar suportando vê-la assim...

- Não! Você não entende... Ninguém entende a dor que estou sentindo...

- Mas, ficar assim não vai trazê-la de volta! Jan infelizmente se foi Alex e você vai ter de conviver com isso! A vida continua Alex!

- Pra mim não! Nada mais me importa!

- Então toda a nossa luta para montarmos a nossa produtora, o quanto Jan nos ajudou, nos incentivou, o quanto ela se sacrificou para ajudar você, a nós, também não importa ?! Foi em vão tudo o que Jan fez?!

Abaixei a cabeça e não respondi.

- Se não importa mais para você Alex o que pretende fazer?! Desistir de tudo?! Jan amava a vida! Amava você, era uma mulher forte, decidida, sempre te incentivando, ela aceitou a doença, e mesmo ciente do pouco tempo de vida não ficou se lamentando! Lembra-se do que ela te falou um pouco antes de ir? Que você fosse forte, que seguisse em frente com sua vida, que podia encontrar outra pessoa e ser feliz assim como foi com ela... E agora veja como esta...

- Pra ela foi fácil...

- O que?! Não sabe o que está falando!

Desesperei-me ao dar conta do que tinha falado.

- Meu Deus! Meu Deus! O que estou falando?! Já nem sei mais o que falo! – E comecei a chorar.

Uma leve batida na porta, Deise a secretária entrou.

- Desculpem, mas estão chamando-as no departamento de criação.

- Obrigada Deise já iremos.

Deise assentiu e silenciosamente saiu da sala.

- Então vamos?

- Não. Vá você Denilze. Não estou em condições de resolver ou decidir nada!

- Se não estais em condições de nada... Ficar aqui como um peso morto também não vai adiantar nada. Vá arrumar outro lugar para ficar sentindo sua pena. Pra mim deu!

Disse isso olhou duramente para mim e saiu.

Sentindo-me ofendida, magoada peguei minha bolsa e fui embora.

Conto: "ASSIM QUIS O DESTINO"

ASSIM, QUIS O DESTINO!

De: Inez Marcondes

Primeiro Capítulo

O dia passava rápido, como se quisesse me levar pra casa, para minha dor, para minha solidão...

Para aquele vazio que se tornou depois dela... Depois que o meu amor se foi...

Seis meses tinha se passado e tudo ainda estava tão presente...

Eu não conseguia esquecer... Diz-me, como esquecer? Com o tempo?!

Não. Nem o tempo faria eu me esquecer, esquecer do meu grande e único amor!

Aconteceu tudo tão de repente...

- Alex! Alex! – fui tirada dos meus pensamentos pelo chamado de minha amiga Denilze.

Sem responder olhei para ela suspirando fortemente...

- Já é tarde vamos... Hoje até eu passei da hora de ir embora. Que achas de irmos comer algo num restaurante que abriu logo aqui perto? Dizem que é muito bom.

- Tenho que ir pra casa... Ela está me esperando...

- Alex, minha querida amiga... Não faça isso com você! Ela não está mais lá, a nossa querida Jan não está mais. Você precisa aceitar, tem que continuar a viver, Vem, você vai comigo, dessa vez não vou aceitar um não.

Relutando resolvi acompanhá-la até esse tal restaurante...

Denilze foi falando, falando e eu somente concordava com tudo com o que ela falava, as imagens dos prédios, das pessoas, do trânsito passavam aceleradas pela janela do carro, mas meus olhos não viam nada... Na verdade não era eu quem estava ali, era apenas um corpo, com seu espírito tomado pela dor, pelo amor, pela saudade...

Chegamos o restaurante, não estava muito lotado e sem ninguém conhecido da empresa dei graças a Deus, pelo menos ficaria livre das intermináveis palavras de consolo e pesar.

- Alex! Alex! Pelo Amor de Deus! Até quando você vai ficar assim?! Não pode continuar desse jeito!

- Não posso viver sem ela! Entende Denilze?

- Já escolheram senhoras?

- Ainda estamos vendo o cardápio, que prato nos sugere?

- Eu não estou com fome... Quero apenas uma salada com um salmão grelhado. - disse sem levantar a cabeça.

- Quero uma salada também, mas com um suculento filé a moda da casa.

- E prá beber?

- Vinho que achas, Alex?

- Ótimo!

Mal toquei na salada, mas já pedia a segunda garrafa de vinho, Denilze me olhava suspirando inconformada dando por vencida de que nada do que me falasse me faria sair daquela letargia, daquele mundo de dor.

- Alex, além de ser sua amiga, sou sua sócia e gostaria que você tirasse uns dias de férias, não agüento vê-la assim deste jeito, tem a casa de praia, quero que você vá para lá, descanse, curta o mar, embora estejamos no outono, mas creio que te fará bem sair um pouco da sua casa, da cidade enfim.

Não respondi, e continuei tomando o vinho.

- Está me ouvindo Alex?

- Estou minha querida sócia!

- Vou pedir a conta. Creio que o vinho já está fazendo efeito, não comeu nada.

Denilze pagou a conta, antes de levantar da mesa enchi a taça com o que restou na garrafa e tomei tudo de uma vez.

- Vou te levar para casa. Seu carro fica no estacionamento da empresa, amanhã de manhã te pego para o trabalho. Do jeito que está não vai ter condições de dirigir.

- Não estou bêbada!

- Não. Eu sei que não está!

Ficamos em silêncio o trajeto todo.

Denilze estacionou em frente da minha casa. Toda escura.

Não agüentei e desandei a chorar. Ela me abraçou carinhosamente.

- Vamos pra minha casa. È melhor.

Sai do seu abraço, me recompondo.

- Obrigada Denilze, mas prefiro ficar aqui em casa. Tenho de ficar.

- Vai ficar bem? Que pergunta tola. Quer que eu fique com você?

- Não. Obrigada. Você já faz muito por mim!

Denilze me abraçou e me deu um beijo.

- Sinto tanto minha querida Alex!

- Eu sei. Até amanhã.

Sai do carro. Ela ainda demorou alguns minutos para dar partida.

Acenei. Finalmente ela deu partida e se foi.

Mais uma vez olhei a frente da casa. Da nossa casa.

- Que linda Alex! Você gostou? Vamos ficar com ela?

- Também achei linda e muito confortável, lógico que teremos de fazer algumas reformas para ficar como queremos.

- Sim meu amor, a nossa casa! Estou tão feliz, ainda mais depois de tudo o que passamos!

O barulho do motor de um carro me despertou das lembranças.

Com as lágrimas escorrendo, abri a porta.

Entrei, ainda sentia o seu perfume pela sala... Jan! Jan!

Joguei a bolsa no canto do sofá, nem acendi a luz, a luz da lua entrava pelos vãos da cortina, sentei-me e fiquei ali, na semi-escuridão, no silêncio... A dor torturando-me, dilacerando-me... Comendo-me por dentro, feroz, implacável, impiedosa...

As lembranças voltaram, como se elas estivessem presas, atadas em mim...

- Quero uma lareira bem ali.

- Lareira?! Foi isso que ouvi? – Olhei para ela divertida, seus olhos brilhavam.

- Para o inverno. Quando assistia a aqueles filmes, aquelas cenas românticas com as lareiras acesas... Eu pensava, quero uma lareira assim um dia na minha casa...

- E um amor como dos filmes também?

Ela caminhou em minha direção, me abraçou e disse-me.

- Não. Porque o meu amor é melhor do que nos filmes, é real!

Beijamos-nos ternamente, e fomos deixando nos envolver, o desejo se apossando, as mãos de Jan começando a percorrer meu corpo, sua língua explorando toda a minha boca ao encontro da minha... Seu ventre se esfregando no meu...

- Estou com muita vontade de você...

- Aqui?! Só tem o piso...

- E precisamos meu amor do piso ou de outra coisa?!

A parede testemunhou e cooperou para saciarmos nossos desejos e fizemos um amor louco, intenso, até chegarmos ao orgasmo juntas.

Tinha eu 28 e Jan 26 anos quando finalmente pudemos comprar nossa casa e viver como casadas.

Meu corpo reagiu ao lembrar do nosso primeiro momento de amor nessa casa, com o coração acelerado, sentindo-me molhada, dei por mim, sozinha naquela sala semi-escura, com toda aquela dor do mundo!

Deitei-me agarrada na almofada preferida dela, tinha o seu cheiro... Jan cadê você?!

- Jan! Jan! Por que Deus te levou de mim?! Por quê?!

A luz do luar, a solidão e o silêncio acompanhou meu choro por muito tempo.

HINO Á ACADEMIA DE LETRAS DE BIGUAÇU"

Hino à Academia de Letras de Biguaçu.

Letra de: Inez Marcondes

Das letras e dos versos;

Osmarina, Vilma, Dalvina

Três mulheres

Três guerreiras

Com emoção e valentia

Fundaram essa Academia.

Sublime é ser;

Do alvorecer até o anoitecer

Tremula a bandeira;

Cinza, azul e amarela.

Outrora Academia de letras São João Evangelista da Barra de Biguaçu.

Tem como símbolo o pássaro Biguá.

Biguá, Biguá, Biguá;

Com seu gorjear a nos encantar.

Sublime é ser;

Do alvorecer até anoitecer

Tremula a bandeira;

Cinza, azul e amarela.

Avante patronos em suas cadeiras;

Amantes das escritas, dos livros;

Das prosas e das poesias;

O tempo passou;

O sonho realizado continuou

Perpetuando os poetas, escritores;

Na Academia de Letras de Biguaçu.

Sublime é ser;

Do alvorecer até o amanhecer

Tremula a bandeira;

Cinza, azul e amarela.

Florianópolis, 04/08/2010

INDOMÁVEL PAIXÃO

POSTADO NO SITE: www.livrearbitrio.net

" INDOMÁVEL PAIXÃO"


De: INEZ MARCONDES